Sem liquidez, BID renegocia com credores e reduz operação
A BID Comercializadora de Energia Elétrica iniciou, no fim de dezembro, um processo de negociação individual com credores e clientes após perder liquidez para honrar integralmente contratos no mercado livre.
Em carta enviada às contrapartes, a empresa afirma que eventos “imprevisíveis e alheios à sua vontade” inviabilizaram a manutenção das condições originalmente pactuadas e propõe rescisões amigáveis ou repactuação de preços.
Segundo o sócio-fundador da BID, Leandro Parizotto, a companhia enfrenta dificuldades para recompor posições desde o segundo semestre de 2024, em meio à disparada do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) e ao processo de quebra de comercializadoras, como Mill, Máxima, Gold, América e, mais recentemente, o grupo Elétron.
Esse movimento teria forçado compras no curto prazo a valores até quatro vezes superiores aos contratos originais, pressionando o caixa e eliminando a liquidez.
A exposição hoje em negociação gira em torno de 5 MW médios, com impacto financeiro estimado entre R$ 5 milhões e R$ 6 milhões. “Não é um volume que cause problema sistêmico, mas retirou a liquidez necessária para manter todos os compromissos nas bases originais”, afirmou o executivo.
A BID diz já ter renegociado mais da metade dos contratos afetados, em alguns casos com a transferência de consumidores para outras comercializadoras varejistas. Entre comercializadoras, há cerca de cinco contrapartes envolvidas, com duas negociações encaminhadas. Até o momento, segundo a empresa, não há ações judiciais movidas por consumidores finais.
Na avaliação de Leandro Parizotto, o estresse recente tem menos relação com preço e mais com a restrição de crédito no mercado. “Houve momentos em que, mesmo querendo zerar posição, não havia quem vendesse energia. O mercado se fechou”, disse.
Ele sustenta que a BID sempre operou com posições casadas e sem apostas direcionais em PLD, mas que, a partir de setembro de 2025, passou a não conseguir recompor contratos diante do ambiente de aversão a risco.
Reinício gradual e sem recuperação judicial
Apesar das negociações em curso, a BID descarta, por ora, recorrer à recuperação judicial. A estratégia é concluir acordos bilaterais e reduzir significativamente o porte da operação, com retomada gradual dos volumes.
“O plano é reiniciar praticamente do zero, como no primeiro mês de liquidação da empresa, com cerca de 5 MW médios, e avançar conforme houver liquidez e crédito no mercado”, afirmou o sócio-fundador.
A comercializadora pretende manter as atividades de gestão e serviços para consumidores no mercado livre, priorizando a recomposição de caixa e a reconstrução de confiança com as contrapartes.
A empresa não possui débitos na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), com liquidações e aportes em dia.
CCEE coloca BID em operação assistida
Procurada, a CCEE informou que a BID está sob regime de operação assistida, conforme deliberação tornada pública na reunião nº 1.478 do Conselho de Administração, realizada em 19 de agosto de 2025.
Em nota, a câmara afirmou que “monitora de forma contínua e isonômica as operações dos agentes, conforme a legislação e a regulação aplicáveis”, e que aprimora continuamente suas metodologias de monitoramento conforme a evolução do cenário.
Pelo regime de operação assistida, o agente só pode realizar novos registros, ajustes e validações de contratos mediante solicitação e autorização da CCEE, que verifica previamente os balanços energéticos para evitar riscos e preservar a liquidez do mercado.
Preços altos e liquidez restrita
O caso da BID ocorre em um ambiente de preços pressionados e maior seletividade de crédito entre agentes. O pedido de recuperação judicial do grupo Elétron, com passivo de R$ 1,17 bilhão, elevou a percepção de risco e reforçou o foco do mercado na saúde financeira dos players, mais do que em preocupações imediatas com abastecimento.
Com o PLD elevado, reservatórios em níveis mais baixos e maior despacho térmico, agentes relatam redução do apetite a risco. A adoção de parâmetros mais conservadores nos modelos, como CVaR mais alto, e a maior dispersão de cenários hidrológicos têm dificultado a formação de preço e levado as mesas de trading a operar com baixa liquidez.
Além disso, parte relevante do capital do setor foi direcionada, nos últimos anos, a projetos renováveis e à geração distribuída, hoje pressionados por desafios como curtailment e dificuldade de encontrar contraparte para a venda de excedentes, o que reduz a disponibilidade de caixa para novas operações.
Nesse ambiente, agentes veem espaço para um novo ciclo de consolidação, com ativos mudando de mãos e empresas buscando escala e robustez financeira para atravessar períodos de maior volatilidade.
Para a BID, a prioridade agora é atravessar o ajuste preservando relações comerciais e, gradualmente, retomar operações em bases menores.
