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El Niño favorece sistema elétrico em 2026, mas acende alerta para 2027

O fenômeno El Niño, que apresenta alta probabilidade de intensificação ao longo do segundo semestre de 2026, deve favorecer as condições de operação do sistema elétrico brasileiro neste ano ao sustentar afluências acima do normal no Sul e em áreas do Sudeste e Centro-Oeste.

No entanto, o cenário pode se tornar mais desafiador em 2027, especialmente devido ao risco de redução das chuvas no Norte e Nordeste e ao aumento do consumo provocado por ondas de calor, avalia Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus.

Segundo ele, a previsão de chuvas nessas regiões tende a retardar o processo de deplecionamento dos reservatórios durante o período seco. Embora a estação seca normalmente comece a se estabelecer a partir de abril, eventos recorrentes de chuva têm mantido os níveis dos reservatórios em condição mais favorável.

“O Sul deixa de ser importador de energia, passa até a ser exportador, e os reservatórios do Sudeste recebem um pouco mais de água. Sem contar a presença de temperaturas mais amenas, que devem segurar o consumo”, explicou.

Nascimento destacou ainda que a safra de ventos, normalmente favorecida em anos de El Niño, começou mais cedo em 2026 e deverá continuar contribuindo para o atendimento da demanda.

“A combinação entre chuvas frequentes no Sul e no sul do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste, além do início antecipado e vigoroso da safra dos ventos, contribui para manter as afluências elevadas e retardar a redução dos níveis de armazenamento dos reservatórios ao longo do período seco. Também esperamos boa geração solar em grande parte do centro-norte do país”, avalia o executivo.

Impactos da distribuição e na transmissão

Por outro lado, ele alertou para riscos relacionados à infraestrutura elétrica. A partir do fim do inverno e durante a primavera, a ocorrência de ondas de calor seguidas pela chegada de frentes frias pode gerar fortes contrastes térmicos, favorecendo temporais com ventania.

Segundo Nascimento, esses eventos podem provocar interrupções no fornecimento de energia e desligamentos em redes de transmissão e distribuição, em cenário semelhante ao registrado nos últimos anos em estados como São Paulo.

“O que chama atenção é a possibilidade de chuva com ventania associada ao contraste entre períodos de calor intenso e a chegada de frentes frias. Isso pode provocar interrupções de energia por vendavais”, afirmou.

Preocupação com 2027

A partir de agosto, porém, a influência do El Niño tende a se tornar mais evidente. A expectativa é de aumento dos períodos secos no centro-norte do país e da atuação de ventos de norte, favorecendo a elevação das temperaturas do meio para o final do inverno. “É bastante provável que a percepção da população seja de que o outono e o início do inverno tenham sido mais frios do que o inverno de forma geral.

O segundo semestre deve apresentar temperaturas acima da média em grande parte do país”, afirma Alexandre Nascimento.

As projeções da Nottus indicam muita chuva no Sul, precipitações abaixo da média no Nordeste e no Tocantins e um padrão mais irregular de chuvas em áreas do Sudeste/Centro-Oeste, da bacia do Madeira e da região do Xingu. Ao longo da primavera, o Sudeste/Centro-Oeste ainda pode ter volumes de chuva acima da média em determinados momentos, mas há possibilidade de redução das precipitações durante o verão.

O especialista vê um cenário mais desafiador para 2027, principalmente no Norte e Nordeste, regiões que registraram boa recuperação hidrológica recentemente, mas que podem enfrentar redução das chuvas sob influência do El Niño.

De acordo com ele, existe uma pressão relevante para que o primeiro trimestre de 2027 combine temperaturas elevadas, com maior consumo de energia devido às ondas de calor, e menor volume de precipitações nessas regiões, reduzindo a contribuição hidrológica das áreas.

“Nós tivemos uma recuperação bastante plena do Norte do Brasil e boas afluências no Nordeste. O ano que vem existe uma pressão grande para termos consumo elevado por conta das ondas de calor e por não chover tanto no Norte e Nordeste. Isso coloca pressão para 2027”, afirmou.

Contraste com o último ano

De acordo com a Nottus, o cenário atual contrasta com a primeira etapa do período úmido, no último trimestre de 2025, quando os volumes de chuva ficaram abaixo do esperado. Na ocasião, a conjuntura do sistema não se deteriorou de forma mais intensa porque as temperaturas permaneceram abaixo da média histórica durante boa parte do período, limitando o crescimento da demanda por energia. As temperaturas mais elevadas concentraram-se entre o Natal e o Ano-Novo.

Já no primeiro trimestre de 2026, houve uma recuperação importante das precipitações nas principais bacias hidrográficas do país. Como resultado, os reservatórios apresentaram melhora significativa.

Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), citados pela Nottus mostram, que o Sistema Interligado Nacional (SIN) iniciou o ano com armazenamento equivalente a 46% da capacidade total e alcançou 71% em meados de abril. Em 8 de junho, o indicador registrava 72%, mantendo-se praticamente estável.

Os destaques positivos ficaram por conta do Nordeste e do Norte, que registraram recuperação rápida e expressiva ao longo do período úmido. O subsistema Sudeste/Centro-Oeste também apresentou melhora relevante, revertendo parte das condições desfavoráveis observadas no fim de 2025. Já o Sul teve maior volatilidade, com oscilações mais acentuadas ao longo do período.

Para Alexandre Nascimento, o comportamento do El Niño em 2026 merece atenção especial por ocorrer em um contexto climático diferente de eventos anteriores.

“Estamos diante da possibilidade de um El Niño muito forte atuando em um planeta que já apresenta temperaturas excepcionalmente elevadas. É uma combinação ainda sem precedentes recentes e que exige acompanhamento constante dos possíveis impactos sobre o setor elétrico e a disponibilidade dos recursos energéticos do país”, conclui.

Fonte: MegaWhat.