Fiep alerta para problemas com a qualidade de energia a consumidores agroindustriais
O consumidor industrial no estado do Paraná está com o alerta ligado para a qualidade do fornecimento de energia. Nos últimos dois anos, o segmento, em especial a indústria do agro tem identificado oscilações e quedas que tem custado caro e trazido prejuízos. De acordo com o superintendente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná, João Arthur Mohr, criadores de frango, peixe e bovinos de leite, são os que mais tem sofrido. Este mês, audiência pública no Senado discutiu a qualidade do fornecimento de energia no estado.
“O grande problema para nós, da indústria, não é nem a questão da queda da energia, mas apenas oscilações, aqueles micro-rebaixamentos de tensão, já acaba desarmando uma linha de produção contínua. Leva às vezes, duas horas, três horas, às vezes até mais tempo, para poder fazer a limpeza das máquinas e rearmar uma linha contínua de produção. O prejuízo é gigante”, avalia. Produtores de frango dependem de energia para manter a temperatura das aves adequadas antes de ir para o frigorífico. Com as tilápias, existe o uso dos aeradores nos tanques de criação. Esses equipamentos elétricos injetam oxigênio na água, levando a um aumento na produção dos peixes.
Levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria em 2024 mostrou que 70% das empresas industriais relataram falhas no fornecimento de energia elétrica ao longo dos 12 meses anteriores. A pesquisa também apontou que a energia é a principal fonte energética utilizada por 80% da indústria brasileira. A percepção do setor é que a estabilidade energética passa ser um fator diretamente ligado à competitividade e à previsibilidade operacional.
Mudanças climáticas e PDV
Ele conta que além das mudanças climáticas, que vêm castigando as redes aéreas de várias distribuidoras no país, outros fatores também contribuíram para a piora no serviço. Um deles é a privatização da Copel. Segundo o executivo, a nova condição da distribuidora trouxe um plano de demissão voluntária que acabou influenciando no aspecto operacional. As equipes terceirizadas que substituíram os funcionários que aderiram ao PDV ainda não tinham a mesma experiência das anteriores, o que acaba prejudicando as ações de restabelecimento.
Segundo ele, pesquisa na cidade de Ponta Grossa com as 30 maiores indústrias mostra em média 40 horas de paralisação em 2025 em cada uma. Juntas, registraram 1.200 horas de interrupção nas atividades em 2025 por oscilações de energia. Ele cita como exemplo uma indústria dessa região. A cada interrupção de energia na sua linha de produção o prejuízo é de R$ 200 mil. Na indústria automatizada, uma interrupção pode levar a descarte de produção, atrasos e aumento nos custos operacionais.
Índices não refletem realidade
Os parâmetros dos índices de qualidade na distribuição são criticados por ele. As métricas estipuladas pela Agência Nacional de Energia Elétrica no DEC e FEC não conseguiriam capturar essas falhas. No caso do Paraná, os indicadores de quedas de energia registrados pela Copel e fiscalizados pela Aneel seriam mascarados pelo baixo número de horas de interrupção do fornecimento no segmento residencial em grandes cidades, como a capital Curitiba. Em 2025, a Aneel pontou melhora no desempenho das distribuidoras no fornecimento de energia.
Dessa forma, os índices não refletiriam os problemas enfrentados pelas demais classes de consumo. Ele também criticou o expurgo dos índices. O expurgo é usado quando a causa foge da responsabilidade da distribuidora. “Nós precisamos rever esses indicadores. Mesmo em condições críticas, tem que ter indicadores que têm um tempo máximo de restabelecimento da linha”, observa.
Mohr dá como exemplo um tornado que aconteceu em Rio Bonito do Iguaçu. Linhas de transmissão e distribuição foram derrubadas. A Copel agiu e fez um trabalho de recuperação da rede, mas segundo ele, tudo que aconteceu foi expurgado, não interferindo nos índices. Ainda de acordo com o superintendente da Fiep, a Aneel tem se mostrado bastante receptiva nesse assunto do aprimoramento dos índices de qualidade. Os parâmetros atuais não estariam mais refletindo a realidade operativa do setor. Nesse contato com a agência, ele também relatou que pediu uma fiscalização mais presente no estado. O órgão está sediado em Brasília.
Ele também demonstrou preocupação com a oferta de energia no estado. Em algumas regiões, um aumento na produção esbarra em restrições da rede. Nesse sentido, projeção da Fiep com os maiores consumidores industriais de energia do estado indica que nos próximos cinco anos, a projeção de crescimento é de 4,5% ao ano.
‘Eletrodependentes’ mapeados
Para o representante da indústria paranaense, a Copel acusou o golpe. Afinal, em seguida, reuniões entre os envolvidos acertaram a criação de uma espécie de ‘força tarefa’ para mitigar estragos e solucionar problemas. Segundo Mohr, foi criado um mapeamento dos produtores ‘eletrodependentes’, os que dependem de energia para que em caso de queda de energia, sejam os primeiros a ter o restabelecimento. “Esse foi o primeiro passo que a gente deu”, explica.
Outro ponto foi a criação de mutirões de poda de árvores, já que a vegetação no entorno de linhas de distribuição havia crescido. Além disso, houve um reforço nas equipes de atendimento imediato.
A distribuidora criou em abril o programa Copel Agro. O objetivo é dar respostas rápidas com foco nas demandas por energia e necessidades do agronegócio apresentadas pelos produtores rurais. De acordo com a Copel, há suporte prioritário para os clientes da cadeia de proteína. Como resultado, no primeiro mês o índice de satisfação atingiu alcançou 94,5%.
Programa com linha direta 24 horas
O programa tem potencial para atender cerca de 73 mil clientes. Há uma linha direta 24 horas que atende esses produtores nas demandas com energia. O Copel Agro possui uma estrutura própria que contempla equipe dedicada no Centro de Operações. Houve ampliação do quadro de eletricistas em regiões com maior produção agrícola. A distribuidora também está implantando escolas de eletricistas em regiões estratégicas para o reforço do quadro próprio de profissionais.
Na última semana, no 1º Fórum Copel Agro, Copel e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia firmaram parceria para ampliar a segurança em instalações elétricas nas áreas rurais. Da mesma forma, produtores rurais terão orientação na contratação de serviços para instalações elétricas dentro das propriedades. No primeiro mês do programa, foram mais de 30 mil atendimentos. A maior parte das solicitações está ligada à interrupção no fornecimento, seguida por demandas comerciais. Segundo a distribuidora, o próximo passo será o foco em soluções estruturais, de modo a atuar de forma preventiva e melhorar o serviço na ponta.
Fonte: Canal Energia.
